Gênero e meio ambiente no contexto do semiárido do Rio Grande do Norte

José Gomes Ferreira

Gênero e meio ambiente: uma perspectiva decolonial e intersecional

Ainda que a questão de gênero atravesse as questões ambientais cotidianas, no Brasil é escassa a pesquisa nessa área, quando internacionalmente o debate e mobilização coincidem com o Maio de 1968. Essa convergência teórica e política permitiu conectar discussões profundas sobre desigualdade social, degradação, justiça ambiental e o desenvolvimento sustentável no contexto da Agenda 2030. 

As primeiras ações ocorrem sob a ótica do ecofeminismo, dando visibilidade ao avanço da exploração acelerada dos recursos naturais e às sucessivas crises econômicas globais, dando visibilidade ao papel das mulheres na divisão social do trabalho. Temos assim que o foco inicial aconteceu no chamado Norte Global, onde se dá uma apropriação gradual de campos políticos pelas mulheres, tanto nos movimentos ambientalistas, quanto nos partidos, bem como nas empresas e na esfera familiar e social.

O Sul Global tem um histórico ligado ao impacto da colonização sobre a natureza e sobre as desigualdades de gênero. Ao abordar o tema, Ferdinand (2022) propõe um olhar intersetorial que perpassa gênero, ambiente, colonialidade e raça. O autor argumenta que a atual “tempestade ecológica” decorre de formas modernas e violentas de habitar a Terra, cujo modelo civilizatório — estruturado a partir do Plantationceno — rompeu as relações matriciais com o planeta (gerando “matricídios”), ao passo que o tráfico negreiro e a escravidão colonial estabeleceram o Negroceno, limitando a condição humana e a liberdade. Temos assim, que na sua análise, o mundo moderno acaba assentando em uma “dupla fratura” colonial e ambiental, colocando, de um lado, a crítica anticolonial que denuncia, entre outras coisas, o genocídio ameríndio e a violência sistemática contra mulheres pretas; e, do outro, a crítica ambiental evidencia a destruição em massa dos ecossistemas promovida pelas colonizações europeias.

Ainda de acordo com Ferdinand, essa estrutura alterou a percepção espiritual da Terra, substituindo a veneração identitária a uma mãe pela submissão a um patriarcado soberano, sujeitando tanto os corpos das mulheres quanto os territórios a severas devastações. Em causa está o fato de, dentro do sistema patriarcal e colonial, seres humanos e não humanos passarem a ser mercantilizados e tratados meramente como “recursos” e usados em um projeto de dominação. 

No Brasil, a herança colonial ibérica e ruralista consolidou o homem como protagonista absoluto do espaço público. Como aponta Saffioti (2000), os homens usufruem de uma autonomia política secular que lhes permite executar projetos sem “pedir licença”, enquanto as mulheres são relegadas a posições subalternas. Essa assimetria sustenta-se em um tripé estrutural indissociável: a primazia masculina, o racismo e a exploração de classe.

A dominação de gênero também é perpetuada por meio da “violência simbólica” e da naturalização da submissão. Segundo Bourdieu (2002), esse arranjo androcêntrico é internalizado pelas estruturas sociais e individuais (o habitus), convertendo-se em hierarquias rígidas. 

Os discursos que tendem a sugerir que a mulher possui uma ligação intrínseca ou natural com o cuidado e a proteção da natureza vêm sendo rejeitados. O que seria a sua pretensa vocação biológica é fruto de uma construção social de papéis e da divisão sexual do trabalho, e não de uma essência inata (Castro; Abramovay, 2005).

Gênero e agenda climática global

A partir de 2015, a articulação entre gênero e meio ambiente passou a integrar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, tornando-se condição indispensável para a redução das desigualdades globais. Relatórios e diretrizes emitidos por agências internacionais, como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, 2015) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, 2021), passaram a exigir de forma enfática a inclusão das mulheres na agenda ambiental e climática.

Entretanto, os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2023) indicam que a condição socioambiental e econômica das mulheres é, de modo geral, mais fragilizada, potencializando a sua exposição aos riscos ambientais. Em cenários de catástrofe ou crises severas, os impactos climáticos não afetam homens e mulheres da mesma maneira. Mulheres grávidas e pequenas agricultoras no Sul Global, figuram como de maior risco, incluindo em questões como a perda de renda, a insegurança alimentar e a escassez crônica de saneamento básico.

É nesse contexto de vulnerabilidade que o ativismo climático de gênero ganha relevância, desafiando as estruturas de governança global ao interseccionar as categorias de gênero, raça e classe diante de um clima em célere transformação.

Gênero, Água e Resistência no Semiárido Nordestino

Ao direcionar-se o olhar para o semiárido brasileiro, especialmente no estado do Rio Grande do Norte, precisamos relembrar que a região é historicamente marcada pelas secas e por estruturas sociais que relegaram as mulheres à invisibilidade do trabalho no espaço doméstico. Nesse cenário de vulnerabilidade, que durante as secas severas e prolongadas, em face da saída dos maridos, recaía sobre a mulher rural o fardo físico e emocional de assegurar a sobrevivência dos filhos, cuidar da roça, tratar dos animais e solucionar os problemas decorrentes da fome. 

Por outro lado, na região é característica a figura da mulher carregando latas de água na cabeça por longas distâncias. Paradoxalmente, esses  momentos também constituíam raros espaços de socialização do feminino, onde as mulheres podiam conversar longe da vigilância masculina (Malvezzi, 2007).

A partir de 2000, a dinâmica socioambiental do semiárido sofreu uma transformação profunda, impulsionada pela chegada do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), promovida pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA Brasil). A introdução das tecnologias sociais de captação de água de chuva alterou a rotina das comunidades rurais. Sem necessidade de pegar água a longas distâncias as mulheres ficaram aliviadas do sobrecarregado trabalho doméstico e com garantia hídrica. A chegada das cisternas viabilizou igualmente a ida regular das crianças à escola. Do mesmo modo, a autonomia hídrica expandiu as atividades produtivas familiares e permitiu que as mulheres assumissem um protagonismo na governança da água e na liderança de empreendimentos agrícolas e movimentos sociais (Façanha, 2019).

A partir do Nordeste, a atuação feminina vinculada ao espaço rural tem ganhado protagonismo na rejeição de qualquer forma de violência de gênero, na defesa da agricultura familiar e da agroecologia. Os movimentos ecofeministas têm igualmente liderado a contestação contra o modelo hegemônico do agronegócio e contra o modelo de expansão das energias renováveis na região, ameaçando os sobre territórios tradicionais. Segundo Silva, Ferreira e Knox (2025), entre as frentes de resistência destacam-se:

  • A Marcha das Margaridas, realizada a cada 4 anos em Brasília;
  • A Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, que ocorre anualmente na região da Borborema, na Paraíba;
  • A Marcha das Margaridas do Seridó, no semiárido potiguar.

O ponto de convergência dessas mobilizações reside na defesa intransigente da justiça climática, da soberania alimentar e de um modelo de desenvolvimento que valorize a vida e preserve os ecossistemas.

Paralelamente ao cenário rural, a atuação das mulheres estende-se ao contexto urbano das cidades através do protagonismo feminino em cooperativas de reciclagem e na gestão de resíduos sólidos. As mulheres desempenham um papel decisivo tanto na esfera privada — regulando o consumo doméstico e o descarte — quanto na esfera pública, organizando redes de catadoras que conferem sustentabilidade ambiental às cidades, embora frequentemente permaneçam invisibilizadas pelas estruturas econômicas formais.

Compreender o nexo entre gênero e meio ambiente no semiárido potiguar passa por reconhecer o processo histórico das secas, com suas profundas vulnerabilidades atualmente impostas pela crise climática e pela herança patriarcal, assim como a resiliência e o papel transformador das mulheres. Essas mulheres deixam de ser vistas apenas como vítimas afetadas pelos riscos ambientais para se consolidarem como agentes centrais na proposição de estratégias de enfrentamento climático, na gestão dos recursos naturais e na promoção da justiça socioambiental.

Referências

  • BOURDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
  • CASTRO, M. G.; ABRAMOVAY, M. Gênero e meio ambiente. 2ª Ed., São Paulo: Cortez Editora, Brasília: UNESCO, 2005.
  • FAÇANHA, I. P. Gênero e água: uma leitura sobre as políticas no semiárido e a inclusão feminina. Desenvolvimento em Questão, v. 17, n. 47, p. 339-356, 2019.
  • FERDINAND, M. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
  • PAINEL INTERGOVERNAMENTAL SOBRE MUDANÇA DO CLIMA (IPCC). Mudança do Clima 2023: Relatório Síntese. 2023.
  • MALVEZZI, R. Semi-árido: uma visão holística. Brasília: Confea, 2007.
  • OECD. Gender and the Environment: Building Evidence and Policies to Achieve the SDGs. Paris: OECD Publishing, 2021.
  • SAFFIOTI, H. I. B. Gênero e patriarcado. Violência contra mulheres. In: RAGO, M. et al. A mulher brasileira nos espaços público e privado. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, p. 43-60, 2000.
  • SILVA, L. N.; FERREIRA, J. G.; KNOX, W. Gênero e agricultura familiar. A (in)visibilidade feminina na liderança dos empreendimentos. Revista Avaliação de Políticas Públicas, v. 12, n. 26, p. 97-121, 2025.
  • UNEP – UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Gender equality and the environment. Policy and Strategy, 2015.

1 José Gomes Ferreira é professor visitante do Programa de Pós-graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e professor colaborador no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual da Paraíba. Email: jose.ferreira@outlook.com

Gênero e meio ambiente no contexto do semiárido do Rio Grande do Norte

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