Pôr lentes de gênero na ciência e nas políticas públicas

Winifred Knox

Pedro Hennrique B. Farias

Olhar o mundo com lentes de gênero é perceber que nenhuma realidade é neutra e que, a depender da aproximação e do distanciamento, podem ser percebidas camadas e marcas. Assim como uma lente ajusta o foco e revela detalhes antes invisíveis, as teorias de gênero e as perspectivas feministas e interseccionais vêm buscando desnudar desigualdades historicamente naturalizadas, evidenciar silenciamentos e ampliar os horizontes para alterar esse estado de coisas em que a maioria da sociedade, os não-homens e as não-mulheres heterocisnormativos, vive à margem e com direitos violados. 

É nesse horizonte que se insurge o “Grupo de Estudos em Gênero, Políticas Públicas e Sociedade (GPPS)”, ativo no diretório de grupos do CNPq (http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/814138), sediado no Instituto de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que constitui-se como um espaço interdisciplinar de pesquisa, formação e intervenção social construído por muitas mãos, desde professores, professoras, alunos/as em diferentes níveis formativos, como também em diálogo permanente com atores institucionais e lideranças de movimentos sociais de mulheres, voltando-se à análise crítica e coletiva das questões de gênero e suas interseccionalidades. 

Criado em 2024, o grupo reúne pesquisadoras, pesquisadores, estudantes e sociedade comprometidos com a produção de conhecimento aplicado entre teoria feminista, políticas públicas e realidades sociais, sobretudo no Nordeste brasileiro. Tendo como área predominante de pesquisa o gênero nas relações sociais, no território, na transdisciplinaridade com as áreas de Ciências Sociais e Planejamento urbano e regional, tendo a maioria de seus pesquisadores vínculo com o Programa de Pós-graduação em Estudos Urbanos e Regionais (PPEUR) da UFRN.

Fotos 1 e 2 : O primeiro ciclo de debates sobre gênero e feminismo.

O grupo também tem investido em parcerias nacionais e de internacionalização acadêmica, desenvolvendo atividades de pesquisa, intercâmbio e cooperação científica com instituições estrangeiras. Destacam-se as parcerias estabelecidas com a Universidade Federal do Amapá, a Universidade Nacional de Santiago del Estero, na Argentina, e com a Faculdade de Belas Artes, em Portugal, por meio da realização de projetos conjuntos, ações de formação, produção científica colaborativa e intercâmbio de pesquisadores. 

Sua atuação se estrutura em quatro linhas de pesquisa: Gênero, sociedade e sustentabilidade; Políticas públicas, direitos humanos e cidadania; Trabalho, desigualdade e relações de gênero; e Violência e relações de gênero. As linhas de pesquisa refletem a amplitude temática do grupo, com a preocupação com a articulação da transversalidade das questões de gênero e com as profundas desigualdades de gênero, fundamentando-as segundo a interseccionalidade de raça e classe na complexidade das realidades. Reconhecendo que a desigualdade de gênero é estrutural e atravessa múltiplas dimensões da vida social, econômica e política. O grupo GPPS, através de seus vários projetos de pesquisa procura enfoque nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, alguns destes são centrais nas pesquisas como o ODS 5, igualdade de gênero, o ODS 10 (Redução das Desigualdades), ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico), mas também produzindo articulações com vários outros, como ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável), ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), o ODS 6 (Água potável e saneamento) entre vários outros.

Principais atividades

Reuniões mensais para palestras e debates de temáticas selecionadas abrangendo anualmente cerca de 10 a 12 encontros no Ciclo de Debates Gênero, Políticas Públicas e Sociedade, que acompanham leitura e discussão de textos e artigos produzidos pelos palestrantes. 

Fotos 3 e 4:  Reuniões online (2025 e 2026)

Reuniões quinzenais envolvendo planejamento de ações coletivas e orientação de projetos, com atividades específicas e suas ações são divulgadas no canal do grupo no Instagram (@gppsufrn).

Os pesquisadores procuram participar de eventos promovidos por diversas associações, como ANPOCS, ANPUR, ABETH, dentre outras, e de eventos promovidos por ONGs e movimentos feministas e sociais. 

Assim, também como a publicação de artigos em periódicos e organização de livros, como o último “Verso e Anverso do gênero: violações, interseccionalidades e políticas públicas (Brasil, Portugal e Argentina)” (no prelo), bem como o lançamento deste blog e os futuros artigos, que visam a divulgação das produções dos pesquisadores e espera-se que o Blog Gênero e Políticas Públicas um novo fluxo de produção de conhecimento se inicie.

Com este blog, o GPPS avança para uma iniciativa estratégica de divulgação da produção do grupo, assim como da difusão das importantes temáticas pesquisadas pelo grupo. Neste sentido, há um grande interesse na formação de redes de pesquisadores, sendo esse espaço destinado ao incentivo ao desenvolvimento da escrita por parte de pesquisadores e a um exercício de popularização da ciência para o enfrentamento das desigualdades de gênero no Rio Grande do Norte e no Brasil. 

A centralidade da desigualdade de gênero como problema público

Os vários projetos de pesquisa partem do reconhecimento de que as desigualdades de gênero são produzidas e reproduzidas por estruturas históricas, sociais e econômicas profundamente enraizadas (Oyarzún, 2010)

A literatura feminista contemporânea, segundo Nancy Fraser (2007), argumenta que a justiça social exige a articulação entre redistribuição, reconhecimento e participação, dimensões que se entrelaçam na produção das desigualdades (Federici, 2015, Orozco, 2014, Oliveira et al., 2015). Assim, esse grupo incorpora a abordagem dos diversos feminismos ao investigar a interseccionalidade de raça e gênero, e políticas públicas para enfrentar desigualdades materiais (como renda e trabalho), simbólicas (como estereótipos e desvalorização) e políticas (como sub-representação em espaços de decisão).

Também procura dialogar com autoras como Bell Hooks (2019), que enfatiza que o patriarcado se articula com o racismo e o capitalismo na produção da opressão das mulheres, especialmente as mulheres negras.

A reflexão que o GPPS tem trazido das teorias feministas tem fundamentado as pesquisas e os projetos de extensão com sistematizações críticas ao neoliberalismo, ao colonialismo nas teorias feministas (Curiel, 2010), às formas contemporâneas de exploração do trabalho (Carrasco, 2014), especialmente temáticas relativas às desigualdades de gênero. Desigualdades que começam a partir do trabalho do cuidado reprodutivo exercido pelas mulheres com a família, não reconhecido como trabalho, que explora as mulheres e aumenta a acumulação primitiva do capital (Federici, 2015). Seguindo críticas de Arruzza, Bhattacharya e Fraser (2019), especialmente no que diz respeito a um feminismo para 99% das pessoas, como crítica ao capitalismo global, ao sexismo e ao classismo presente na sociedade patriarcal brasileira. Assim, também são desenvolvidas ações para a defesa de alternativas econômicas através das políticas públicas da economia solidária baseadas na cooperação, solidariedade e autonomia das mulheres.

Políticas públicas, Estado e movimentos sociais

É importante fundamentar uma compreensão histórica das lutas feministas como antipatriarcais, mas não somente, também tiveram origens nos movimentos anarquistas, anticapitalistas, nas revoluções socialistas e comunistas, ocorridas no século XX. A temática central de pesquisa envolve reconhecer a insurgência da temática, a necessidade da incidência política destas pautas, o engajamento das mulheres por melhores condições de vida e pela construção de políticas públicas responsivas. 

Desde a Carta da ONU de 1946, passando pela Conferência Internacional da Mulher (México, 1975), pela criação do UNIFEM e da ONU Mulheres, até a Convenção CEDAW (1980), há um percurso histórico que demonstra que a igualdade de gênero é uma agenda global, construída por meio da articulação entre lideranças feministas, movimentos sociais, organismos internacionais e Estados nacionais.

O grupo reconhece o papel fundamental dos movimentos feministas e das organizações de mulheres na formulação de políticas públicas, afirmando que “os ativismos de movimentos feministas têm estabelecido pressões para que os estados implementem políticas públicas para o atendimento do problema das questões da desigualdade de gênero” (Knox, et al., 2024). 

Essa perspectiva dialoga com autoras como Carrasco (2006), que defendem a necessidade de uma economia centrada na vida e no cuidado, por isso subversiva ao modelo de economia hegemônica e com estudos sobre participação social e democracia.

Além disso, o GPPS articula-se com movimentos sociais locais e nacionais, especialmente no apoio às demandas das lutas das mulheres trabalhadoras, agricultoras, artesãs, pescadoras e suas associações no litoral e no interior semiárido do RN. Essa aproximação entre universidade e sociedade civil reforça o caráter aplicado e transformador da pesquisa.

Salienta-se a busca por metodologias feministas na realização de oficinas e dinâmicas colaborativas, já que um dos pilares metodológicos do grupo é a adoção de abordagens colaborativas e avaliações responsivas ao gênero, inspiradas em autoras como Magalhães (2011) e Podems (2010) que se apoiam na educação popular (Freire, 1993). Essas metodologias partem do princípio de que as mulheres não são apenas objetos de pesquisa, mas sujeitas produtoras de conhecimento, cujas narrativas, percepções e experiências são fundamentais para compreender e transformar realidades.

Tais práticas buscam promover espaços horizontais de diálogo (Fuentes, 2014, Hooks, 2013), decoloniais (Mimoso, 2010, 2016), para a construção de uma ciência com consciência (Morin, 1996), buscando que essas interações sigam “critérios de respeito, interseccionalidade de raça e gênero, e horizontalidade”.

O GPPS se destaca por sua capacidade de integrar pesquisa, ensino, extensão e intervenção social. O grupo reúne pesquisadoras e pesquisadores com diferentes formações e níveis de titulação, criando um ambiente de formação interdisciplinar e intergeracional. Sua atuação tem repercussões tanto na comunidade acadêmica quanto na sociedade, entre suas contribuições, destacam-se: – produção de diagnósticos sociais participativos; – desenvolvimento de metodologias feministas aplicadas; – formação de estudantes em pesquisa e extensão; – articulação com movimentos sociais e associações de mulheres; – divulgação científica acessível, incluindo relatórios, artigos e cartilhas táteis e sonoras; – fortalecimento da agenda de igualdade de gênero no RN.

Referências

ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. Boitempo editorial, 2019.

CARRASCO, Cristina. “Economía feminista: una apuesta por otra economía”. In: Vara, M. J. (Coord.) Estudios sobre género y economía. Madrid: Akal, 2006.

CURIEL, O. Hacia la construcción de un feminismo descolonizado In Aproximaciones críticas a las prácticas teórico-políticas del feminismo latinoamericano / coordinado por Yuderkys Espinosa Miñoso. – 1a ed. – Buenos Aires: En la Frontera, 2010.

FEDERICCI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Buenos Aires: Rio de Janeiro: ed. Elefante, 2015[?].

FRASER, N. Mapeando a imaginação feminista: da redistribuição ao reconhecimento e à Representação.Estudos Feministas, Florianópolis, 15(2): 240, maio-agosto/2007. 

FREIRE, P. Que fazer: Teoria e prática em educação popular. Petrópolis: Vozes, 1993.

 FUENTES, C.Tejiendo de otro modo: Feminismo, epistemología y apuestas descoloniales en Abya Yala / Editoras: Yuderkys Espinosa Miñoso, Diana Gómez Correal, Karina Ochoa Muñoz – Popayán: Editorial Universidad del Cauca, 2014.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. São Paulo: ed.WMF Martins Fontes, 2013. 

HOOKS, Bell. Teoria feminista: da margem ao centro. São Paulo: Editora Perspectiva SA, 2019.

KNOX, W. Mulheres e sustentabilidade no RN: proposta de estudos feministas para o desenvolvimento de políticas públicas e uma economia sustentável nas atividades de trabalho no rural nordestino. Projeto aprovado em edital universal, CNPq (2024).

MAGALHÃES, Viviana Filipa Moreira. A importância de uma intervenção responsiva ao gênero no Sistema de Justiça Juvenil: um estudo exploratório. Dissertação apresentada à Faculdade de Direito da Universidade do Porto, 2021. Disponível em https://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/138072/2/517777.pdf  

MINOSO, Y. E. Aproximaciones críticas a las prácticas teórico-políticas del feminismo latinoamericano / coordinado por Yuderkys Espinosa Miñoso. – 1a ed. – Buenos Aires: En la Frontera, 2010.

MINOSO, Y. E. De por qué es necesario un feminismo descolonial: diferenciación, dominación co-constitutiva de la modernidad occidental y el fin dela política de identidad. Solar | Año 12, Volumen 12, Número 1, Lima, pp.171. DOI. 10.20939/solar.2016.12.0109

 MORIN, E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Berthrand- Brasil, 1996.

OLIVEIRA, M. C., VIEIRA, J. M., MARCONDES, G. S. Ciquenta anos de relações de gênero e geração no Brasil: mudanças e permanências. IN Trajetórias das desigualdades: como o Brasil mudou nos últimos 50 anos. Martha Arretche. 1aed. São Paulo: ed. Unesp,2015.

 OROZCO, Amaia Perez. Subversión feminista de la economía: aportes para un debate sobre el conflicto capital-vida. Traficantes de sueños, 2014.

OYARZÚN,K. Feminismos latinoamericanos: interseccionalidad de sujetos y relaciones de poder In Aproximaciones críticas a las prácticas teórico-políticas del feminismo latino americano / coordinado por Yuderkys Espinosa Miñoso. – 1a ed. – Buenos Aires: En la Frontera, 2010.

PODEMS, Donna R. Feminist Evaluation and Gender Approaches: There’s a Difference? Journal of MultiDisciplinary Evaluation, Volume 6, Number 14, 2010. 

SIMON, Vanessa Pereira. “Economia feminista, economia social e Solidária, paradigma para econômico: Repensando o paradigma hegemônico e a importância das mulheres”.  Textos de Economia, Florianópolis, v. 23, n. 1, p. 1-29, jan./jul., 2020.

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